REGANDO TERRITÓRIOS
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REGANDO TERRITÓRIOS

REGANDO TERRITÓRIOS

Numa tarde luminosa e fresca de Maio, num recanto já verdejante e cuidado situado entre a Vila Cândida e as torres do Alto da Eira onde um grupo de cidadãos está a implementar uma horta comunitária, juntaram-se homens, mulheres e crianças para uma conversa longa sobre desacelerar e produzir alimentos em pequenos espaços livres  em contextos de grande pressão e  densidade urbana. No caso específico, imaginamos que aquela horta será mais que um espaço de produção de alimentos, a avaliar pela correria das crianças no sobe e desce de patamares e por entre as árvores já plantadas (também elas ainda jovens); bem como pela informal reunião e partilha de saberes e horas de labor (sobretudo) aos sábados de habitantes do bairro e outros vizinhos que paulatinamente se vão juntando ao Paulo e à Maria no trabalho de limpar, nivelar e preparar canteiros, semear e plantar árvores, arbustos, hortícolas e, claro, regar. Já se sente e percebe que ali muitas estórias e memórias irão ser (re)escritas e contadas entre as gentes da comunidade e que aquelas crianças têm na Horta Alto da Eira um local para de forma mais próxima do mundo ‘vegetal’ jogarem saudavelmente o seu crescimento…

Mas vamos ao debate!

Começaram por tomar da palavra o Joaquim, a Cátia e o Arnaldo do projecto de transição ecológica (agrofloresta urbana) que está a acontecer desde 2018 no bairro da Bela Flor em Campolide. Na “Bela Flor Respira” não há cercas nem uma lógica de plantei/colhi; trata-se de um espaço aberto para ser vivido. O foco está na partilha de conhecimentos com vista à regeneração e valorização dos recursos, bem como à sustentabilidade e à inclusão social. Ao fim de 3 anos a comunidade lá tem vindo a aparecer e a participar mais no processo. Prova disso é o empenhamento e alegria que o Arnaldo (um habitante de longa data do bairro) expressa, pois ali tem um espaço para RESPIRAR saudavelmente.

Mais info: https://belaflorrespira.wixsite.com/agrofloresta

Em seguida interveio o Tiago da “Upfarming”, que é um projecto completamente diferente que visa maximizar o espaço e a produção de alimentos em contextos urbanos, utilizando técnicas e tecnologias mais recentes  para montar e cultivar alimentos em planos verticais (as chamadas hortas verticais).  A ideia de ‘cidades saudáveis' mais resilientes e sustentáveis, onde as comunidades também podem e devem participar entusiasma o orador que, ainda assim, reconhece que por maior que seja a otimização dos resultados das hortas verticais, apenas uma fração das necessidades de alimentos serão satisfeitas (na melhor das hipóteses cerca de ¼).

Mais info: https://upfarming.org/pt-pt/

Seguiu-se a intervenção do Florian Ulm da Horta FCUL que é, desde 2009, um espaço de experimentação de técnicas de permacultura. Um laboratório vivo de permacultura, onde diferentes disciplinas e alunos se encontram. Um local para demonstrar o potencial das técnicas permaculturais, para se testar e investigar de forma transdisciplinar novos modos de produção de alimentos sempre inspirados pelas leis da natureza. Um local para maravilhamento e mobilização da comunidade universitária que se (pre)ocupa com a qualidade dos alimentos e mais…

https://hortafcul.wixsite.com/home https://ciencias.ulisboa.pt/pt/permalab

Por fim, tomámos a palavra! Carlos Soares e Luís Camacho. Agradecemos o convite e o trabalho que ali está a ser feito. Chamámos a atenção para a importância do setor primário e para todas as iniciativas de produção de alimentos em contextos coletivos e de proximidade com os consumidores finais. Lembrámos o trabalho que David Holmgreen (co-criador da Permacultura) tem vindo a fazer nos últimos anos: ‘Retrosuburbia’; uma proposta talvez mais alinhada com os atuais contextos demográficos, de necessidades alimentares e de acesso a recursos energéticos cada vez mais escassos; uma proposta a apontar para um cenário a que ele designa de “energy descent futures”. E incentivámos a que este diálogo/iniciativa venha a ter continuidade, pois trata de um tema fulcral para a vida de todas as pessoas e que se liga com outros temas igualmente fundamentais, o respirar, a saúde, o bem-estar, o futuro…

Nota mesmo final para dizer que ao longo das intervenções foi havendo tempo para perguntas e intervenções d@s participantes na conversa (e uma lista integral de questões que o ‘Regador’ preparou segue mais abaixo) e que no final final ainda se trocaram mais ‘papéis’, contactos, interrogações e desejos de encontros-outros…

Questões a debater:

Devemos repensar o nosso quotidiano?
Repensar a forma como produzimos e consumimos?
Devemos reduzir o nosso ritmo de vida?
Em que medida o nosso ritmo de vida influencia a nossa capacidade de intervenção e o nosso próprio bem-estar?
Qual é então o caminho a fazer na produção e consumo dos nossos alimentos?
Será possível repensar a forma como construímos os espaços verdes?
Precisamos de mais espaços produtivos (hortas) nas cidades?
Como devemos encarar o espaço urbano das cidades?
Como podem contribuir as hortas para a sustentabilidade das cidades?
de que tipo de cidades falamos? até que escala é que uma cidade é sustentável, especialmente num cenário e abordagem decrescentistas?
Qual é a importância de cultivar o próprio alimento e fazê-lo nos centros urbanos onde habitamos?
Qual é o impacto desta atividade se o fizermos em comunidade?
Qual é o seu real impacto social e ambiental?

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